O MUNDO MÓRBIDO DA ANOREXIA NERVOSA

Publicado na Revista JM Magazine, n.º17 - Abril/2007

por Daniel Hercos (*)

 

(*) Membro titular da Associação Brasileira de Psiquiatria. Atua na Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM)

Posso chamar seus pais ?

“... Minhas pernas não agüentam meu peso e acabo caindo. Mas é queda de altura, sei que é porque não alimento. Quando saio de casa tomo dois litros de água pra tirar a fome e sentir o corpo mais pesado, ando com dificuldade, sinto fraqueza, tento apoiar, mas não adianta acabo no chão.


Estou triste, não quero mais viver, tenho 15 anos e parei minha vida. Às vezes choro muito e também me apavora a idéia de morrer.
Gostaria de ser mais corajosa, poder temperar azeite na comida, acho que uma colher de café, talvez menos ainda, mas voltar a colocar.
Eu gostava muito de azeite. Quem sabe beliscar meio
“sonho de valsa”, era bom! No natal tentei comer uma castanha do Pará inteirinha, mas desceu só a metade, tenho receio de engordar. Sabe doutor já não posso suportar esta dor, me sinto sozinha. Preciso de ajuda, por favor cuida de mim. Tenho medo de ficar louca!”


A doença trata-se de uma perturbação na imagem do esquema corporal, caracterizada por limitação na ingestão de alimentos, obsessão de magreza e o medo mórbido de ganhar peso.Isso pode ser um sinal de estresse ou depressão. Não se conhecem as causas básicas da Anorexia Nervosa. A maioria dos casos ocorre em mulheres, com grande incidência após dieta de emagrecimento. A idade média para o início da Anorexia Nervosa é de 17 anos, frequentemente está associada com um acontecimento vital estressante, como sair de casa para cursar a universidade, mudança de escola, casamento, rompimento conjugal, morte na família etc.



Este último século valorizou e firmou a imagem como um dos grandes pilares do sucesso. Comparados aos manequins de plástico, os corpos de proporções perfeitas começaram a habitar a fantasia dos jovens que queriam ser aceitos amados e mais do que isso, valorizados. Nada mais justo para este adolescente querer somar esforços para ficar igual à imagem da revista, mesmo que para isso tenha que abrir mão de sua saúde e de alguns prazeres, como comer.





“Precisamos rever valores; alimentar é uma forma de fornecer amor ao nutrir nosso corpo e nossa alma de força e energia. Por este processo primitivo que envolve o prazer oral, a vida humana constrói saúde, equilíbrio das emoções, inteligência e por conseguinte a beleza. Corremos o risco de ter a existência fixada estreitamente aos limites do nosso corpo. Incapazes de transcender nossas mentes, ceifados de toda a vida. Boa alimentação com exercício físico e não dietas, são as melhores formas de manter um peso saudável.”


Existem duas grandes dificuldades no tratamento da “anorexia”: a demora em procurar atendimento medico e a falta de aceitação do tratamento.Na verdade a primeira reflete a recusa da família em aceitar a doença e a segunda a recusa do paciente.

Os pais sofrem influencia de parentes leigos que acham o distúrbio um simples capricho, uma teimosia ou algo que vai passar.


Inventam também a opção da cura por alguma coisa “mais natural”,algo “que não faça mal”ou a famosa frase, “onde já se viu nossa  criança ter que tomar estes calmantes”. Esta doença pode ser fatal, e com  ignorância se mata ou conduz ao suicídio!  Psicologicamente deve-se  encorajar a adoção de atitudes mais sadias por parte da paciente, que é recompensada com elogios e diminuição de situações aversivas como restrição de sua mobilidade.
A psicofarmacoterapia feita pelo psiquiatra é indispensável e, normalmente, se faz à custa de antidepressivos, que tenham como efeito colateral também o estímulo do apetite e o ganho de peso. Havendo necessidade de sedação (quase sempre há), recomenda-se que seja feita com antipsicóticos, sobretudo aqueles que também aumentam o apetite.

 

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