História e Glória da Medicina
2.ª Parte - Mundo Medieval

Publicado na Revista JM Magazine, n.º13 - Março/2006

por Daniel Hercos (*)

(*) Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

Durante dez séculos, a Europa foi tomada pela "Idade das Trevas". Restaram como instituições apenas o burgo, o Feudo e a Igreja que exercia o máximo poder da época. Nos mosteiros os conhecimentos da antiguidade foram levados para o alto das torres e aprisionados em nome da suposta preservação dos dogmas cristãos. Neste momento histórico, acontece algo inesperado: os árabes invadem o Ocidente, trazendo guerra e cultura. O Sol brilhou entre bruxos e hereges, rompendo a imensa escuridão; registro om minhas palavras o segundo capítulo da "História da Medicina":

"O ESPLENDOR DA MEDICINA ÁRABE NA NOITE DE MIL ANOS"

(O MUNDO MEDIEVAL)

A IDADE MÉDIA (SÉC. V AO SÉC. XV)

O Islã e a Medicina Árabe

Os primeiros 250 anos após a Hégira (fuga de Maomé para Medina, em 622 d.C.) assistiram ao desenvolvimento de uma vigorosa cultura árabe. Durante esse período, a medicina foi liderada pela família Bukht-Yishu e por tradutores que vertiam para o árabe as obras da medicina ocidental, de Hipócrates e Galeno.


Gravura sobre a circulação sanguínea do médico Ibn en Nafis - séc. XIII d.C. - Biblioteca Nacional de Paris

Muitos termos científicos árabes tem raiz grega e, por outro lado, vários termos químicos usados na civilização moderna, como álcool, alcalino, alcalóide, alquimia e alambique, vêm do árabe.
Os médicos árabes conhecidos foram Rhazes, Avicena, Albucassis e Averróis. Abu Bakr Muhammad ibn Zacaria, conhecido como Rhazes (860-932 d.C.), era persa, mas estudou medicina em Bagdá, onde se estabeleceria como o maior clínico árabe de seu tempo.


Cirurgia imperial, traduzida do turco a partir de um tratado compilado na Pérsia durante o séc. XIII - Museu de Istambul

Ele influenciou toda a farmacologia européia do fim do período medieval com seu trabalho intitulado "Continente", uma compilação enciclopédica de importantes obras clássicas traduzidas. A varíola era conhecida na Antiguidade, mas Rhazes foi o primeiro a definir seu tratamento.


O mais famoso de todos os médicos árabes, porém, foi sem dúvida Abu Ali al-Husain ibn Abdallah ibn Sina, conhecido como Avicena.

Nasceu em 980, na Pérsia. Precoce, começou a estudar medicina com 16 anos e, aos 18, já era um médico experiente. Eclético, destacou-se também na filosofia, na matemática e na astronomia. Sua obra-prima é o "al-Quanun" ou "Cânones", utilizada por muito tempo nas escolas de medicina ocidentais.



Cerimônia do ID - Fim do Ramadã (1140 d.C.)
Museu Britânico - Londres


A obra, em cinco volumes, foi uma tentativa em larga escala de coordenar as doutrinas médicas de Hipócrates e Galeno e a biológica de Aristóteles.
Abu'l-Qasim, que europeus conheciam como Albucassis, publicou cerca de trinta obras sobre medicina, inclusive um livro sobre cirurgia. O instrumental árabe, muito mais aperfeiçoado que o europeu, é minuciosamente descrito por Albucassis em seus livros.
Ibn Rushid, ou Averróis (1126-1198 d.C.), era mais conhecido como filósofo do que como médico. Seu texto mais famoso é o Colliget, ou "coleção", que se preocupa mais com a teoria do que com a prática da medicina.

EUROPA: A IDADE DAS TREVAS

A medicina dos mosteiros na era da fé

Em meio ao caos em que vivia a Europa no inìcio da Idade Média, com guerras, epidemias e fome, os cuidados com os doentes passaram às mãos das ordens religiosas. O diagnóstico de uma doença na Idade Média não podia variar muito.



Dissecação. Ilustração de compêndio de Bartolomeus Anglicus Séc. XV d.C. - Biblioteca Nacional de Paris


Ou a doença era provocada pela entrada de um demônio no corpo do paciente, ou decorria de influência da lua, de almas dos mortos, de feitiços ou pragas, quebranto ou mau olhado.



Manuscrito número 1977 da Escola de Salermo, prática Rogerii-British Museum - Londres

Os Monges na tentativa de curar, recorriam mais freqüentimente às preces, mas às vezes apelavam também para a cirurgia, o que, não raro, resultava na morte do paciente. Para precaver-se disso, em 1131 o Concílio de Reims e em 1139 o Concílio de Roma proibiram os sacerdotes de exercer a medicina fora dos conventos.


Com isto, os leigos encontravam nas cercanias dos mosteiros oportunidade para a observação e para colocar em prática seus conhecimentos. Pouco a pouco foram se formando escolas leigas de medicina junto aos próprios mosteiros.

Escola de Salermo, a ciência luta pela sobrevivência

A medicina leiga foi revitalizada pela “Escola de Salermo”. A cidade havia sido uma colônia romana no ano de 194 d.C. e possuía uma longa história como estação de tratamento. Contava ainda com a influência árabe dos sarracenos, que dominavam a vizinha ilha da Sicília. Os conhecimentos da escola de Salermo eram expressos principalmente em versos. Outro aspecto pouco comum da escola era a presença de mulheres como estudantes. Entre elas destacaram-se Trótula, que escreveu um texto sobre obstetrícia, e Abella. Outro destaque foi o mestre Garioponto, autor do Passionário , obra copiada e recopiada durante toda a Idade Média. No Passionário, Garioponto descreveu todas as doenças, desde as que afetavam a cabeça, até aquelas que pertubavam os pés.

As Grandes Pestes, sob os domínios do medo

A era medieval testemunhou duas epidemias de peste. A primeira
atingiu a Europa do leste durante o reinado de Justiniano (542-
543 d.C). A segunda, a peste negra, chegou à Inglaterra em 1348.

Há pouca evidência documentada sobre o número exato de mortes durante a primeira epidemia, mas estima-se que um quarto da população da Europa, o equivalente a 25 milhões de pessoas, tenha morrido vítima da peste negra.



Detalhe de "O triunfo da morte", cópia de Jan Breughel de um quadro de seu pai, Pieter Breughel
Biblioteca Nacional de Paris

Considerados assistentes do demônio, causadores das pestes, os judeus e os leprosos foram os bodes expiatórios na Europa infestada. Principalmente na Suíça e na Alsácia, os judeus foram massacrados juntamente com os leprosos que tinham sobrevivido à doença.

 

“A tragédia incutiu tamanho horror nos corações dos homens e das mulheres que irmãos desertavam irmãos, um tio abandonara o sobrinho e uma irmã afastou-se do irmão. As mulheres abandonavam seus maridos e, o que era ainda pior, pais e mães recusavam-se a cuidar de seus filhos”.

“Giovanni Boccaccio”
Fins da idade média

As universidades européias em busca da razão

No século XII surgiu a primeira “Universidade de Mestres e Estudantes” em Bolonha, onde já existia uma escola de direito desde o século XI. Foi a primeira de uma série; se caracterizava pelo espírito original e independente diante das velhas tradições, a vontade de inovar, de criar.



Problemas de saúde ,segundo tratado de Rogerius Frugardi, cirurgião da época salernita - Museu Britânico, Londres
 


“Tadeu de Florença (1223-1303 d.C.)”, mencionado por Dante, que, provavelmente, freqüentou seus cursos, foi um dos primeiros professores de medicina, e seus serviços profissionais de alta qualidade eram constantemente requisitados. No espírito das universidades medievais, o médico deixa de ser apenas um curandeiro. Ele passa a ser um cientista, que estuda anatomia, examina os doentes, diagnostica as moléstias, pratica intervenções cirúrgicas e conta cada vez mais com novos recursos para seu trabalho. A anatomia recebeu um grande impulso nas mãos de “Remondino de Luzzi, conhecido como Mondino (cerca de 1270 d.C.)”, praticava a dissecação de forma sistemática e, embora seus conhecimentos se limitassem ao trabalho de Galeno, escreveu Anatomia. Cerca de dois anos após a primeira dissecação de Mondino, o processo com finalidade científica foi permitindo oficialmente pelo papa Sixto V.


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